
Dormir bem é uma das necessidades mais básicas do ser humano, mas para milhões de brasileiros, uma noite tranquila de sono parece um luxo distante. Segundo dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), impressionantes 72% dos brasileiros apresentam algum tipo de alteração no sono. O estudo EPISONO 2026 revelou que a prevalência de distúrbios do sono saltou de 32,9% para 37,1% da população.
Os números são ainda mais alarmantes quando olhamos para a insônia: 3 em cada 10 brasileiros convivem com sintomas do problema, de acordo com o Vigitel 2025 do Ministério da Saúde. Desses, 20,2% dos adultos dormem menos de 6 horas por noite, abaixo do mínimo recomendado pela Organização Mundial da Saúde(OMS). As mulheres são as mais afetadas, com 36,2% relatando sintomas, contra 26,8% dos homens.
Neste segundo artigo da série Saúde Mental e Bem-Estar, vamos explorar o que são os distúrbios do sono, suas causas, os sinais de alerta e, principalmente, quando buscar ajuda profissional.
O Que São os Distúrbios do Sono?
Os distúrbios do sono são condições que afetam a quantidade, a qualidade ou o horário do sono, prejudicando o funcionamento físico, mental e emocional durante o dia. Não se trata apenas de "dormir mal": são alterações que comprometem a saúde de forma significativa e merecem atenção médica.
A Academia Brasileira do Sono classifica dezenas de tipos diferentes de distúrbios, sendo os mais comuns:
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Insônia: dificuldade para iniciar ou manter o sono, ou acordar muito cedo sem conseguir dormir de novo
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Apneia Obstrutiva do Sono: pausas na respiração durante o sono, que podem ocorrer dezenas ou centenas de vezes por noite
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Síndrome das Pernas Inquietas: sensação desconfortável nas pernas que provoca uma vontade irresistível de movimentá-las, principalmente à noite
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Distúrbios Comportamentais do Sono: comportamentos anormais durante o sono, como sonambulismo, falar dormindo e terror noturno
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Distúrbios do Ritmo Circadiano: dessincronização entre o relógio biológico interno e o ciclo dia-noite
Em 2026, o Brasil passou a classificar oficialmente a "síndrome do sono insuficiente" como uma condição crônica de saúde, reconhecendo o impacto profundo que a privação de sono tem na saúde pública.
Insônia: O Distúrbio Mais Comum
A insônia é, de longe, a queixa mais frequente relacionada ao sono. Estima-se que cerca de 45% dos homens e parcela ainda maior das mulheres apresentem algum grau do problema ao longo da vida. Nos casos crônicos, a insônia costuma ter duração média de 3 anos, podendo estar presente em 56% a 74% dos pacientes.
Tipos de Insônia
Insônia Aguda (de curta duração): dura dias ou semanas e geralmente está associada a um evento estressor específico, como uma prova importante, uma demissão, um luto ou uma internação hospitalar.
Insônia Crônica: ocorre pelo menos 3 noites por semana, durante 3 meses ou mais. Pode ser primária (sem causa identificável) ou secundária a outras condições, como ansiedade, depressão, dor crônica ou uso de substâncias.
Insônia de Início: dificuldade para pegar no sono ao se deitar.
Insônia de Manutenção: dificuldade para permanecer dormindo, com despertares frequentes durante a noite.
Insônia Terminal (despertar precoce): acordar muito antes do desejado e não conseguir voltar a dormir.
Causas e Fatores de Risco
Fatores Biológicos e Fisiológicos
O sono é regulado por dois sistemas principais: o ritmo circadiano (relógio biológico interno) e a pressão homeostática do sono (a necessidade de dormir que aumenta quanto mais tempo passamos acordados). Desequilíbrios nesses sistemas podem levar a distúrbios do sono.
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Predisposição genética: pessoas com histórico familiar de insônia têm maior chance de desenvolvê-la
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Envelhecimento: a qualidade do sono tende a diminuir com a idade
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Condições médicas: dor crônica, problemas respiratórios, doenças neurológicas, distúrbios hormonais e refluxo gastroesofágico podem prejudicar o sono
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Alterações hormonais: mulheres na menopausa ou com síndrome pré-menstrual têm maior prevalência de insônia
Fatores Psicológicos e Emocionais
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Estresse e ansiedade: a mente hiperativa dificulta o relaxamento necessário para dormir
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Depressão: pode causar tanto insônia quanto sonolência excessiva diurna
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Preocupações financeiras e profissionais: a "mente ligada" à noite é uma das queixas mais comuns
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Traumas: eventos traumáticos podem desencadear distúrbios do sono duradouros
Fatores Comportamentais e de Estilo de Vida
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Uso excessivo de telas: a luz azul de celulares, tablets e computadores inibe a produção natural de melatonina pelo cérebro
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Horários irregulares de dormir: variar constantemente o horário de deitar desregula o relógio biológico
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Consumo de cafeína e nicotina: estimulantes que podem permanecer horas no organismo
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Álcool: embora possa induzir o sono inicialmente, fragmenta o sono na segunda metade da noite
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Refeições pesadas à noite: a digestão atrapalha a qualidade do sono
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Sedentarismo: a falta de atividade física está associada a pior qualidade do sono
Fatores Ambientais
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Barulho e poluição sonora: ruídos noturnos interrompem os ciclos de sono
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Iluminação inadequada: dormir com luzes acesas atrapalha a produção dos hormônios do sono
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Temperatura inadequada: ambientes muito quentes ou muito frios prejudicam o sono profundo
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Colchão e travesseiro inadequados: o suporte físico é essencial para um sono reparador
Sinais de Alerta: Quando o Sono Não Está Bem
Muitas pessoas normalizam uma noite mal dormida, mas o corpo dá sinais claros de que algo não vai bem. Fique atento a estes sintomas:
Sinais Noturnos
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Demorar mais de 30 minutos para pegar no sono regularmente
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Acordar várias vezes durante a noite e ter dificuldade para voltar a dormir
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Acordar muito cedo e não conseguir dormir de novo
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Ronco alto, pausas na respiração ou sensação de sufocamento durante a noite
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Sensação de formigamento ou agitação nas pernas ao deitar
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Ranger os dentes ou ter comportamentos incomuns durante o sono
Sinais Diurnos
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Cansaço excessivo ao acordar, mesmo após uma noite inteira na cama
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Sonolência durante o dia, especialmente em momentos de baixa atividade
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Dificuldade de concentração e lapsos de memória
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Irritabilidade e alterações de humor
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Dores de cabeça frequentes ao acordar
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Queda no desempenho no trabalho ou nos estudos
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Necessidade de cochilos frequentes ou de cafeína em excesso para se manter alerta
Quando Procurar Ajuda Profissional?
A insônia e outros distúrbios do sono não devem ser encarados como "frescura" ou algo que passa sozinho. Procure avaliação médica quando:
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Os sintomas ocorrem 3 ou mais noites por semana
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O problema persiste por mais de 3 meses
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A qualidade do sono afeta claramente sua disposição, humor ou desempenho durante o dia
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Você sente sonolência ao dirigir ou operar máquinas
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Seu parceiro(a) relata pausas na respiração ou ronco muito alto
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Você tem movimentos involuntários nas pernas que atrapalham o sono
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A dependência de álcool ou medicamentos para dormir está aumentando
O primeiro passo é uma consulta com um clínico geral, neurologista ou psiquiatra. Em alguns casos, pode ser indicada uma polissonografia, exame que monitora as ondas cerebrais, a respiração e os movimentos do corpo durante uma noite inteira de sono.
Hábitos que Favorecem o Sono Reparador
A boa notícia é que grande parte dos casos de insônia pode ser significativamente melhorada com mudanças nos hábitos diários. Essas práticas são conhecidas como higiene do sono e formam a base de qualquer tratamento:
Ambiente Favorável ao Sono
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Mantenha o quarto escuro, silencioso e fresco (temperatura ideal entre 18°C e 22°C)
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Invista em um colchão e travesseiro de qualidade e adequados ao seu biotipo
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Use o quarto apenas para dormir e descansar, evite trabalhar, comer ou ver TV na cama
Rotina e Horários
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Estabeleça horários fixos para deitar e acordar, inclusive nos fins de semana
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Crie uma rotina relaxante antes de dormir: leitura, música calma, banho morno ou meditação
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Evite telas (celular, tablet, computador, TV) pelo menos 1 hora antes de dormir
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Se não conseguir dormir em 20 minutos, levante-se e faça algo relaxante em outro ambiente, voltando para a cama só quando sentir sono novamente
Alimentação e Atividade Física
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Evite cafeína após as 14h (café, chá preto, chá verde, refrigerantes à base de cola, bebidas energéticas)
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Evite refeições pesadas nas 3 horas que antecedem o sono
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Não consuma álcool como "remédio para dormir", ele prejudica a qualidade do sono
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Pratique atividade física regular, mas evite exercícios intensos nas 2 horas antes de dormir
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Exponha-se à luz natural durante o dia, especialmente pela manhã, para regular o relógio biológico
Mente e Emoções
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Pratique técnicas de relaxamento como respiração profunda, meditação ou mindfulness
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Evite levar preocupações e problemas para a cama, tenha um caderno para anotar pendências antes de dormir
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Evite discussões ou estímulos emocionais intensos próximo ao horário de deitar
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Busque psicoterapia se a ansiedade ou a depressão estiverem interferindo no seu sono
Apneia do Sono: Um Distúrbio Silencioso
A apneia obstrutiva do sono merece destaque por sua alta prevalência e pelos riscos à saúde cardiovascular. Caracteriza-se por episódios repetitivos de obstrução das vias aéreas durante o sono, que levam à queda dos níveis de oxigênio no sangue e a microdespertares, tudo isso sem que a pessoa perceba.
Os principais sinais de alerta incluem:
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Ronco alto e irregular
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Pausas na respiração observadas pelo parceiro(a)
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Sensação de sufocamento ou engasgo durante a noite
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Sono não reparador e sonolência diurna excessiva
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Acordar com a boca seca ou dor de garganta
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Dores de cabeça matinais
A apneia não tratada está associada a maior risco de hipertensão arterial, infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e arritmias cardíacas. O diagnóstico é feito por polissonografia e o tratamento pode envolver o uso de dispositivos de pressão positiva contínua nas vias aéreas, mudanças de posição ao dormir e, em alguns casos, cirurgia.
Considerações Finais
Dormir bem não é um luxo, é uma necessidade fisiológica tão importante quanto comer, beber água e respirar. Os números no Brasil são preocupantes: 72% da população com alterações no sono, 3 em cada 10 com sintomas de insônia, e 20% dormindo menos de 6 horas por noite.
A boa notícia é que a maioria dos distúrbios do sono tem tratamento. Mudanças nos hábitos diários, aliadas à orientação profissional adequada, podem transformar a qualidade do sono e, consequentemente, a qualidade de vida.
Se você se identificou com algum dos sinais descritos neste artigo, não ignore. Seu corpo está pedindo ajuda. Consulte um médico, busque orientação e permita-se o direito de dormir bem.
👉 Tem dúvidas sobre distúrbios do sono?
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