No balcão da farmácia, uma pergunta voltou a aparecer nas últimas semanas: "Ashwagandha é proibida? Eu vi um vídeo falando muito bem dela, mas também li que a Anvisa barrou. Afinal, o que é verdade?"
A dúvida faz sentido. Nos últimos anos, a Ashwagandha virou um dos nomes mais comentados quando o assunto é bem-estar, sono e estresse. Extratos da planta aparecem em vídeos, influenciadores e promessas de "equilíbrio emocional em cápsulas". Ao mesmo tempo, notícias sobre restrições, recolhimentos e alertas de segurança começaram a circular, inclusive com a menção à planta em notificações de órgãos reguladores.
O objetivo deste artigo é esclarecer, com responsabilidade, o que de fato a Ashwagandha é, o que a legislação brasileira diz sobre ela, quais riscos estão associados ao seu uso e por que qualquer decisão sobre esse tipo de produto deve passar, obrigatoriamente, pela orientação de um profissional de saúde habilitado. Nada aqui substitui uma avaliação individual, e nenhuma informação a seguir deve ser lida como incentivo à compra ou ao uso por conta própria.
O que é a Ashwagandha e de onde vem o interesse
A Ashwagandha é o nome popular da planta Withania somnifera, uma erva de origem asiática utilizada há séculos na medicina ayurvédica, a medicina tradicional da Índia. Por seu uso histórico em contextos de fadiga, estresse e vitalidade, a planta também ficou conhecida como "ginseng indiano", embora não tenha qualquer relação botânica com o ginseng.
Os compostos mais estudados da planta são os chamados withanólidos, um grupo de substâncias naturais com propriedades antioxidantes que despertam interesse científico em diversas áreas, como resposta ao estresse, qualidade do sono, disposição e desempenho físico. Foi esse potencial que transformou a Ashwagandha em um dos suplementos mais procurados do mundo fora do Brasil, sobretudo em países onde a comercialização como suplemento alimentar é permitida, ainda que com ressalvas.
No Brasil, porém, a história é diferente. E é exatamente aí que começa a confusão: o que é legal e comum em outros países não é, necessariamente, permitido por aqui. A pergunta correta, portanto, não é apenas "o que a planta faz", mas "o que a legislação brasileira permite que se faça com ela".
O que diz a Anvisa sobre a Ashwagandha
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) regula, no Brasil, quais ingredientes podem ou não ser utilizados em suplementos alimentares. Para um ingrediente ser autorizado, ele precisa constar em listas específicas de substâncias permitidas, após avaliação de segurança e adequação ao uso proposto.
A Ashwagandha, ou melhor, a espécie Withania somnifera, não consta nessas listas de ingredientes autorizados para suplementos alimentares. Isso significa que, no Brasil, o extrato da planta não pode ser rotulado, comercializado ou anunciado como suplemento alimentar. A base dessa restrição remonta à RE nº 3.669/2022 e foi reforçada por atualizações normativas publicadas ao longo de 2025, que intensificaram a fiscalização do setor.
Na prática, isso quer dizer que drogaria e farmácias não estão autorizadas a comercializar suplementos alimentares industrializados que contenham o insumo Withania somnifera. Produtos encontrados à venda na internet, muitas vezes importados, estão sujeitos a irregularidades e podem ser alvo de apreensão, recolhimento e outras medidas sanitárias. Em 2026, por exemplo, a própria Anvisa anunciou o recolhimento de suplementos alimentares de marcas que apresentaram indícios de composição em desacordo com a regulamentação.
Vale destacar um ponto importante para evitar desinformação: dizer que a planta não é autorizada como suplemento não é o mesmo que dizer que ela está incluída em uma lista de plantas proibidas por toxicidade. O enquadramento é outro. A espécie simplesmente não foi autorizada para a finalidade de suplemento alimentar no país, o que, na prática, a retira do mercado de suplementos. Qualquer exceção, como a possibilidade de uso em formulações manipuladas, depende de avaliação individual, prescrição e análise técnica, temas que abordaremos mais adiante.
Por que o tema virou alerta de segurança
O interesse pela Ashwagandha não chamou a atenção apenas de consumidores. Órgãos de vigilância sanitária de diferentes países passaram a analisar a planta mais de perto, e parte dessas avaliações resultou em alertas públicos que, com razão, geraram apreensão.
A agência reguladora da Austrália, a TGA, por exemplo, publicou um alerta apontando que medicamentos e suplementos à base de Withania somnifera podem estar associados, em casos raros, a risco de lesão no fígado. O alerta foi motivado por relatos na literatura científica e por um aumento no número de eventos adversos reportados. Outras autoridades internacionais também reforçaram a necessidade de cautela, especialmente diante da comercialização de produtos sem registro sanitário e sem controle de qualidade.
No Brasil, o cenário se repete em escala ampliada: parte dos suplementos avaliados pela Anvisa em análises recentes apresentou irregularidades, e a presença de ingredientes não autorizados, como a Ashwagandha, é um dos problemas identificados. Produtos falsificados, rótulos enganosos e promessas de resultados imediatos alimentam um mercado paralelo que ignora a legislação e, principalmente, a segurança do consumidor.
Esse conjunto de fatores explica por que o nome da planta passou a circular ao lado de palavras como "alerta", "notificação" e "risco". Não se trata de pânico, mas de um movimento legítimo de vigilância em torno de uma planta que, fora do controle regulatório, pode expor as pessoas a danos que não são divulgados nas redes sociais.
O que a ciência investiga sobre a planta
Para ser justo com a ciência, é preciso dizer que a Ashwagandha é objeto de estudos em diversas áreas. Pesquisas exploratórias investigam seus efeitos em sintomas de estresse, qualidade do sono, disposição, desempenho físico e funções cognitivas, com resultados preliminares que despertam curiosidade. Acredita-se que os withanólidos estejam ligados a parte desses efeitos, em mecanismos que envolvem a resposta do organismo ao estresse oxidativo.
Também é verdade que muitos desses estudos apresentam limitações: amostras pequenas, durações curtas, metodologias variadas e, em vários casos, financiamento ligado a fabricantes dos produtos testados. Os efeitos do uso prolongado ainda não são bem conhecidos, e a segurança em populações específicas, como gestantes, lactantes e pessoas com doenças crônicas ou autoimunes, não está estabelecida.
Em outras palavras: existe interesse científico legítimo, existem indícios que justificam investigação, mas não existe, no momento, um corpo de evidências robusto que sustente promessas de cura, tratamento ou garantia de segurança para uso livre. Quando a planta não é sequer autorizada como suplemento no país, qualquer conversa sobre "benefícios comprovados" deve ser recebida com muita desconfiança.
Riscos, efeitos adversos e precauções
Reações mais relatadas
Embora parte da literatura descreva a planta como bem tolerada em alguns estudos, não se pode ignorar que o uso está associado a relatos de efeitos adversos. Os mais comuns incluem desconfortos gastrointestinais, como náusea, diarreia e dor abdominal, além de sonolência e sensação de sedação em algumas pessoas, o que pode interferir na realização de tarefas que exigem atenção. Reações alérgicas, embora menos frequentes, também são possíveis.
O alerta que mais preocupa, porém, é o já mencionado risco raro de lesão hepática. Não é um evento comum, mas é grave o suficiente para que agências reguladoras internacionais tenham emitido comunicados. A existência desse alerta já seria motivo suficiente para que ninguém consuma produtos à base da planta sem avaliação profissional e sem saber exatamente a procedência e o controle de qualidade do que está ingerindo.
Pessoas que devem evitar
Alguns grupos merecem atenção redobrada e, na maioria dos casos, devem evitar completamente o uso sem acompanhamento:
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Gestantes e lactantes: a segurança não está estabelecida, e o uso não é recomendado.
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Pessoas com doenças autoimunes: a planta pode influenciar a atividade do sistema imunológico, e o efeito em quem já tem imunidade desregulada é imprevisível.
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Pessoas em tratamento com imunossupressores: a interação entre a planta e esses medicamentos não é segura sem avaliação médica.
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Pessoas com distúrbios da tireoide: há indícios de possível influência sobre a função tireoidiana, o que exige cuidado.
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Pessoas com doenças hepáticas pré-existentes: diante dos alertas sobre o fígado, qualquer histórico de problema hepático deve ser investigado antes de qualquer uso.
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Pessoas que irão se submeter a cirurgias: a planta pode interagir com medicamentos usados no procedimento e na recuperação.
A lista não é exaustiva. Medicamentos sedativos, ansiolíticos, hipoglicemiantes e anti-hipertensivos, entre outros, podem interagir com substâncias da planta. Por isso, quem toma qualquer medicação contínua precisa de avaliação individual antes de considerar qualquer uso.
Como usar com segurança
A resposta mais honesta é: no Brasil, nas condições atuais de regulamentação, não existe "uso seguro por conta própria" de Ashwagandha. A planta não é autorizada como suplemento alimentar no país, e os produtos encontrados à venda, especialmente na internet, estão fora do controle sanitário brasileiro, o que cria uma dupla incerteza: não se sabe o que há no produto e não se sabe o que a planta pode causar em cada organismo.
Se, após avaliação profissional, houver alguma justificativa técnica para o uso, essa decisão será tomada por médico ou farmacêutico habilitado, com base no quadro individual, na análise de interações e em uma fonte segura e controlada. Doses, concentrações, formas de uso e duração do tratamento são decisões técnicas que não podem ser copiadas de vídeos ou de relatos de terceiros.
A recomendação vale para qualquer substância, mas aqui ela é ainda mais importante: desconfie de ofertas milagrosas, de rótulos sem informações claras, de produtos sem registro e de quem promete resultados rápidos.
O papel do farmacêutico na orientação segura
Em um cenário marcado por tanta desinformação, o profissional de saúde é a pessoa mais indicada para separar o que é ciência do que é modismo. O farmacêutico, em especial, tem uma função única: avaliar cada caso, identificar interações com medicamentos e condições de saúde e orientar com base na legislação e na melhor evidência disponível, nunca no impulso de vender.
A Fórmula Equivalente atua há mais de duas décadas na Baixada Santista com um compromisso que não muda: rigor técnico, conformidade com a legislação sanitária e atendimento humanizado. Quando um cliente chega com dúvidas sobre qualquer ativo, seja Ashwagandha ou qualquer outro, o caminho é sempre o mesmo: ouvir, investigar, informar com responsabilidade e, quando necessário, encaminhar ao profissional que pode prescrever. Fazer diferente seria trair a confiança que sustenta a relação com pacientes e prescritores.
Se você tem dúvidas sobre este tema, ou sobre qualquer outra substância que tenha visto circular nas redes, procure uma farmácia de confiança e conversa com o farmacêutico. Essa conversa, que parece simples, é uma das formas mais eficazes de proteção à saúde que existe.
FAQ: Perguntas Frequentes
Ashwagandha é proibida no Brasil?
A Ashwagandha não é autorizada como suplemento alimentar no Brasil, pois a espécie Withania somnifera não consta na lista de ingredientes permitidos para essa finalidade. Isso quer dizer que produtos rotulados como suplementos alimentares contendo o ativo estão irregulares perante a Anvisa e não podem ser comercializados de forma legal no país.
Posso comprar Ashwagandha pela internet?
Não é recomendado. Produtos vendidos online, especialmente os importados, costumam estar fora do controle sanitário brasileiro, sem garantia de registro, procedência ou qualidade. A compra por conta própria expõe o consumidor a produtos irregulares e a riscos à saúde que não são informados na hora da venda.
Ashwagandha faz mal ao fígado?
Agências reguladoras internacionais, como a TGA da Austrália, emitiram alertas sobre um risco raro, porém grave, de lesão hepática associado ao uso de produtos à base deWithania somnifera. Não é um efeito comum, mas existe e precisa ser conhecido. Pessoas com histórico de doença no fígado devem evitar o uso sem avaliação médica.
Quem não deve usar Ashwagandha?
Gestantes, lactantes, pessoas com doenças autoimunes, pessoas em uso de imunossupressores, pessoas com distúrbios da tireoide, com doença hepática pré-existente ou que irão passar por cirurgia devem evitar o uso por conta própria. Qualquer pessoa que use medicamentos contínuos também precisa de avaliação individual.
Farmácia de manipulação pode fazer uma fórmula com Ashwagandha?
A manipulação de qualquer substância exige, antes de tudo, uma prescrição legítima e a análise técnica do farmacêutico sobre a segurança e a adequação da fórmula para aquele paciente. Uma receita não significa que o produto possa ser tratado como suplemento nem que o uso esteja liberado para todos. A avaliação é sempre individual.
Conclusão
A Ashwagandha é um exemplo perfeito de como o interesse por uma substância pode crescer mais rápido do que as informações confiáveis sobre ela. A planta tem história, tem tradição e tem um campo legítimo de investigação científica. Mas, no Brasil, ela não é autorizada como suplemento alimentar, e seu uso está cercado de alertas de segurança que não podem ser ignorados.
Antes de acreditar em promessas encontradas nas redes, lembre-se: saúde não se decide por vídeo, se decide com informação responsável e com quem estudou para isso. O médico avalia, o farmacêutico orienta, e o paciente decide com segurança. Esse é o caminho, e ele não muda, seja qual for o ativo em questão.
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